26 Março 2008

Jogando pra torcida com titio FHC

Fernando Henrique Cardoso em momento de reflexão

O boca de suvaco did it again. O Uol de hoje estampa na capa um “FHC autoriza quebra de gastos sigilosos da sua gestão”. Além de nunca ter visto alguém “quebrar gastos”, achei estranho. Como assim “autoriza”? Com a autoridade de quê? De sociólogo e ex-presidente? E a magnética, agradecida, se encantava...

Em primeiro lugar, a autoridade que ele tem hoje para “liberar” ou não o acesso aos dados é a mesma que o Didi Mocó: zero. Se a CPI achar que deve quebrar o sigilo – e conseguir base jurídica para isso –, vai quebrar e pronto. Essa história de mandar uma cartinha pro Virgílio “autorizando” a quebra é como se eu mandasse uma carta para o Vaticano “autorizando” o Bentão a celebrar a missa do galo.

Segundamente, como diria Alberto Roberto, leiam o trecho: “2) Não preciso, por conseqüência, abrir mão de prerrogativa que não usei e que é discutível. Basta requisitar as ditas contas à Casa Civil da Presidência da República”. Ele próprio, provavelmente sabendo do mico que seria “autorizar” algo sem ter o menor poder para isso, ensaboa o quiabo, passa uma vaselina por cima e escorrega gostoso.

FH, sempre bom saber que continuas o mesmo.

21 Março 2008

Uma capa qualquer

Às vezes, é divertido parar um pouco e olhar com mais cuidado todas as chamadas da capa de um site. Algumas chamadas d’O Globo de hoje:

“FMI: Economia americana está perto da recessão”
O FMI chamou a Mãe Dinah pra economista-chefe?

“Fluminense festeja vitória com saltos ‘ornamentais’ na piscina”
E o Prozac do capista acabou quando?

“Crivella: Gabeira defende homem com homem e maconha”
Necessariamente nessa ordem, bispo?

“Novos browsers tentam garantir espaço na web”
No caso, é um teste do IE 8, Firefox 3 e do Opera. Novos????

“Jovem espancado por usar camisa do Vasco”
E vocês queriam o quê?

“Miriam Leitão: Crise será longa e pode durar dois anos”
Essa é a melhor. O Paulo Coelho da análise econômica descobre a pedra filosofal. E o que mais, tia Miriam? Vai dizer que o dólar é a moeda dos EUA? Ou quem sabe revelar ao mundo que a Bolsa é o lugar onde se negociam ações? Qual será o próximo furo?

19 Março 2008

Senta aqui no colo do tio, "blogosfera"

Ontem este humilde blogueiro perdeu uma de suas fontes prediletas de diversão. O “blogue” do Paulo Henrique Amorim saiu do ar, snif, snif... O sábio que nos informava, entre uma ou outra saudação ridícula, sobre o novo livro da Glorinha Kalil e sobre um tal de Partido da Imprensa Golpista fez o famoso acordo com o IG: a empresa entrou com o pé e ele entrou com a bunda.

Desde o começo da briga/suruba entre Nassif, PHA, Reinaldo Azevedo, Gerald Thomas e sei lá mais quem, o mais triste não foi ser obrigado a ler pérolas como “PIG” ou “Petralhas” ou “Sou gente boa”, no caso do Nassif. O mais decepcionante foi ver como a “blogosfera” – ô palavrinha feia -, sempre na vanguarda, alternativa e supostamente acabando com a dita grande imprensa, caiu de joelhos ao primeiro sinal de “opa, vou chutar cachorro grande”. Na canela, só se for.

Cada blogue tem uma teoria da conspiração para chamar de sua. É a Oi, é a Brasil Telecom, é o Dantas, é o dono do boteco aqui da esquina, é a puta que o pariu. Muito bem, palmas para os que pretendem acabar com a “grande imprensa” e instituir a livre informação. Livre informação, aliás, que se não for livre das pautas obrigatórias semeadas pelos luminares do teclado – ou da Olivetti, em casos isolados -, não servirá para PORRA NENHUMA.

Quando o Estadão fez aquela campanha comparando blogueiros a macacos todo mundo subiu no galho. Este que aqui escreve inclusive. Uma das linhas era a de que um jornal, que tem até um portal e blogs nele hospedados, não pode ignorar a ferramenta (epa!). Pois bem. Enquanto eles pareciam ignorar a ferramenta, tudo estava muito alternativo na “blogosfera”. Quando a barra-pesada chegou, a pauta virou qual? A deles.

Jornalistas que estão por aí desde que Gutemberg ainda estava testando aquela geringonça hoje ditam o rumo da “ferramenta” que até pouquíssimo tempo nem sabiam que existia. A “intelectualidade” brasileira já provou que ninguém larga o osso com facilidade. Quem impediu duas gerações de irem adiante sempre dizendo que não valiam nada e que no tempo deles é que era bom, hoje está tentando abafar mais uma, consciente ou inconscientemente.

Um lutou na Libelu e vai na base do "naquele tempo, sim, é que tínhamos resistência". Sei. Outro tenta se esquivar de um passado de sacanagens dando uma de bom velhinho agora. “Olha, moçada, agora eu sou o tiozinho antenado, aquela figura simpática que xinga a Veja e escreve o que vocês querem ler. Vamos tomar um chopinho? Vocês pagam, tá?”. Vou ali vomitar e já volto.

Aí o leitor, se é que alguém lê isso aqui além do Fabrício, que caiu na besteira de assinar o RSS, vai dizer: “Ah, espertão, mas você também está na pauta deles”. Sim, estou. Só que eu não estou na pauta deles para poder dizer pros meus amiguinhos que “o meu blogue dá um pau no Gerald Thomas” ou “olha, gatinha, eu tive 32 comentários porque chamei o Mino Carta de idiota governista. Dê para mim”. Tou na pauta deles pra tentar tirar de vez da garganta esse gosto de amargo que bate a cada vez que eu vejo uma coisa que poderia servir definitivamente para extinguir os dinossauros no Brasil virar só mais um meio de alimentar os paquidermes.

Piada pronta, estranha piada pronta

Xuxa lança campanha contra pedofilia na web

Rodrigo Baggio (à esq.), fundador e diretor executivo do Comitê para Democratização da Informática (CDI), Xuxa Meneghel, presidente da Fundação Xuxa Meneghel, e Alcides Troller Pinto, vice-presidente da Unidade de Negócios Varejo e Internet da GVT
RIO - Foi dada a largada nesta terça-feira, no Morro da Providência, no Rio de Janeiro, para a campanha "Uso responsável da internet". A iniciativa, coordenada pela Fundação Xuxa Meneghel, o Comitê para Democratização da Informática (CDI) e a operadora GVT, tem o intuito de oferecer suporte a pais, professores e alunos para o bom uso da rede mundial de computadores. Leia mais

12 Março 2008

DVD, mão na cabeça e documento


A economia da China cresce mais de 10% ao ano há cinco anos. Não sou eu quem vai brecar este ciclo. Chegando o salário, hora de gastar. Fui pra uma loja de eletrônicos aqui perto e comprei um aparelho de DVD. Custava 390 yuans mas tava em promoção por 290.

Depois, passei numa lojinha de música também perto e comprei o último filme dos Piratas do Caribe. Sugestivo título por aqui. Por 20 yuans e numa caixinha original, com selo de qualidade original, lacre original. E DVD falso, cheio de marcas de dedo e meio esquisitão. Mas funciona.

Depois de ligar tudo e testar, vim pro computador. Ligo o bicho e toca a campainha. Como nunca havia tocado aqui, no começo achei que fosse no vizinho. Tocou de novo e fui ver. Dou de cara com quatro meganhas chineses. Um deles, o menorzinho e mais novo, eu reconheci. Foi ele que esteve na rádio explicando em inglês para os especialistas como funciona isso aqui (a lição era, resumidamente, “escreveu, não leu, o pau comeu”, mas durou meia hora).

Foram educados e só deram uma olhada no passaporte e na permissão de residência, perguntaram se eu morava sozinho. Não por piedade ou pra virem mais tarde tomar uma cerveja e me fazer companhia, mas porque aqui você tem que registrar todo mundo que mora na casa, mesmo que venha pra ficar só uns dois dias. Se não tiver o registro, multa de até 5 mil yuans.

Depois da verificação toda, ele mandou um “thank you for your cooperation”, apertou minha mão e todos foram embora. Agora, uma “pensata”, como diriam os viados da Folha. Eu moro em Beijing, uma cidade com quase 14 milhões de habitantes, certo? Certo. Eu moro quase na periferia de uma megalópole, certo? Certo. Não sou nenhum marajá e estava vestindo calça de moletom, camiseta surrada e chinelo quando eles chegaram. Não falo a língua deles. Ninguém estava por perto pra ver nada. Troquem Beijing por São Paulo e a polícia daqui pela PM de São Paulo. Depois me contem o resultado...

11 Março 2008

And now for something completely different...


Hoje tive uma das experiências mais engraçadas daqui. Monty Python, quase. Fui finalmente ao serviço expresso do correio tentar enviar uns documentos pro Brasil.

Entrando na agência, vi um balcão com a inscrição "English spoken" e fui direto. Obviamente, a mulher não fala inglês e nem tenta. Aí foi uma mímica geral. E os dois morrendo de rir a cada cagada de um ou de outro. Juntou gente pra ver. Eu preenchi o envelope do lado errado, ela não conseguia registrar o endereço aí do Brasil, uma zorra.

Uns três funcionários da agência ficaram do lado olhando a cena e rindo. Mas, pela primeira vez, consegui escrever algo em chinês e ser compreendido. Tudo bem que foi coisa besta. O cara que veio ajudar a moça perguntou pra onde era a carta e eu, achando que a minha pronúncia era uma merda (o que é mesmo), escrevi Brasil no papel e o cara entendeu todo feliz. Eu parecia criança quando escreve a primeira sílaba na vida.

Para terminar, obviamente o cara, depois de ler “Ba Xi”, mandou o comentário sobre o "Ronardô (insira alguma coisa em chinês)". Não tem jeito. Futebol, de fato, é uma língua muito mais universal do que o inglês. Ainda bem.

09 Março 2008

Ainda postando no escuro: Como ficar sozinho entre mais de 1 bilhão de pessoas


Como já disse no post anterior, não consigo abrir nada do Blogspot aqui, então, vou escrevendo sem poder ler depois.

Aos poucos, a rotina de Beijing vai me engolindo. Nos primeiros tempos qualquer pedra na rua era interessante. Isso, obviamente, começou a mudar há algum tempo. Claro que a cidade continua sendo - e vai ser sempre, acho - uma baita fonte de inspiração pra muita coisa e um lugar que nunca vou terminar de explorar. Esse é o sentimento mais generalista.

Quando o pensamento volta para o lado egoísta, a coisa fica um pouco complicada. Olhando para meu umbigo me vejo sozinho num lugar onde só consigo me comunicar por mímica e por uma meia dúzia de frases em mandarim que já aprendi. Já se vão quase dois meses que estou aqui e também começa a dar uma sensação de inutilidade. Pô, para quem está aqui, eu tou fazendo pouca coisa.

Comecei a pensar um pouco em quais são os obstáculos, além da língua. É primeira vez que vou a um lugar altamente turístico sem precisar correr para ver o máximo de coisas no menor tempo. A idéia de ter bastante tempo para ver as coisas gera um tanto de comodismo. Esse é um dos motivos.

Outra coisa que derruba é não ter mais o lastro dos amigos ou da família. Não existe mais aquela coisa de "quarta-feira tem jogo" ou "sábado tem cerveja e domingo macarronada". Aqui, se eu quiser passar um ano sem fazer porra nenhuma de interessante, posso. Vou fazer isso? Não. Mas posso. É a diferença entre o que você pode ou não fazer que mexe com a cabeça. E, já que é esse o assunto, o terceiro ponto que perturba aqui: não saber claramente o que eles querem, o que se deve fazer, o que é considerado ruim e o que é bem visto.

A diferença cultural, quando se trata de conhecer isoladamente algumas nuances, é interessantíssima. Mas quando o caso é ter que se aculturar fica muito, muito diferente. É interessante, ainda, mas o senso de obrigação que passa a pesar sobre a cabeça deixa tudo mais nebuloso. Você vê um chinês agindo de alguma maneira, mas não sabe se um estrangeiro pode fazer o mesmo. Pode ser que sim, pode ser um absurdo. E, estando sozinho aqui, esse absurdo pode custar muito. Discussões na rua, por exemplo, nem pensar. Como eu vou me fazer entender, mesmo que tenha razão? Mesmo que consiga, quem disse que eles me darão razão? Por que o estrangeiro está nervoso?

Aqui, com exceção do próprio apartamento, você nunca está em um lugar com "dois ou três" chineses. Em qualquer lugar você está entre "vinte ou trinta" chineses. A sua possibilidade de agir fica limitadíssima. E, assim como em qualquer lugar do mundo, em caso de crise, não preciso nem dizer de que lado os locais ficam, certo?

Mas, afinal, por que eu estou escrevendo isso, mesmo? Bom, já me perdi. Depois volto pra tentar dar algum sentido a essa coisa toda.

03 Março 2008

Postando no escuro

Vou postar isso aqui sem poder ler o blogue aqui na China. Não sei se alguém vai ler e, no fundo, fica até um pouco divertido. Às vezes isso aqui dá uma angústia do cacete. É muito bom? É. É uma puta chance? É. Mas a saudade aperta pra caralho e eu sei que não dá pra ficar pedindo o tempo todo pra nego ficar prestando atenção ao que tá acontecendo. Enfim. A escolha foi essa, apesar de todos os atenuantes e das coisas boas, acho que é a primeira vez (tirando minhas conversas com a Ana) em que consigo falar isso: eu não fazia a menor idéia de onde estava me metendo. E, no fim, foi bom ter vindo. O balanço da coisa é positivo pra caralho, mas confesso que às vezes dá uma puta vontade de voltar, dá vontade de dizer "bom, acabou o sonho. hora de acordar e voltar pro Asterix".
Não consegui trazer muitos CDs, então tou ouvindo muita música pelo Youtube. Tou ouvindo isso aqui agora http://www.youtube.com/watch?v=dCBiu0MZvIA. Foi o que me influenciou a escrever esse post? Provavelmente. E quer saber? É do caralho. Já me fodi e fodi outros dando uma de forte e o escambau. Como bem me disse o Marco Antonio uma vez, "tira esse cabo de vassoura da coluna, porra".
Abraços, beijos e saudades